Nascimento e infância

                                                       
                                                                        

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Capitulo um


Nasci no dia 25 de abril de 1972, ano das calças boca de sino, da liberdade Hippie, e tantas mudanças pelo mundo.
Durante boa parte da minha vida, quis ter nascido nos anos 50 e poucos, para viver os anos 70 com toda aquela liberdade e cultura hippie, mas hoje sei que se eu vivesse naqueles tempos, minha vida teria se encerrado bem cedo.
Até hoje sou apaixonada pela música dos anos 50, 60, 70 e claro dos anos 80, minha época.
O dia do meu nascimento tem algumas histórias, numa delas eu nasci em um roncó, (para quem não sabe o que é, me disseram que é um quartinho, onde a pessoa que decide raspar a cabeça para um orixá, deve ficar naquele quarto um período e só se comunicar com seu pai ou mãe de santo, comer somente a comida dos orixás e não sair de lá até o término do ritual, ao menos foi uma das explicações que me deram).
Em outra história, nasci em casa, minha mãe não gostava de hospitais.
12 horas de parto e já todos dizendo para minha mãe que eu estava morta, mas ela me contou que o tempo todo estava calma e confiante que eu estava bem.
No dia que nasci, estavam presentes minha mãe claro, minha avó, a parteira e não sei se bruxa, macumbeira, benzedeira ou sei lá o que ela era, mas havia uma mulher mística no dia.
Não sei de quem foi a ideia de dar nomes de santos para que eu nascesse com vida e saúde, e dizem que após minha mãe falar meus nomes, de 3 santos, eu nasci.
Tem uma versão que eu fui dada a uma entidade para ela me apadrinhar, para que eu nascesse com vida e ele ser meu protetor e guardião, um exu, eu não sei qual destas histórias é a real, só sei que após 49 anos depois aqui estou, e que sou filha de Deus, não de santos, não de exus, mas de Deus somente.
Nasci com o cordão umbilical enrolado no pescoço, roxa, sem respirar, mas Deus tinha planos pra mim e aqui estou te contando a história.
Mesmo já iniciando a vida com tantas versões, só sei que nasci, e que Deus, desde que eu estava no ventre da minha mãe, já tinha planos para mim, e só que me importa é que Ele estava lá, disso não tenho duvida nenhuma.
Nasci em uma cidade de São Paulo, Osasco, onde normalmente me refiro como a Oz, nasci em uma casa que meu avô havia construído, ficava aos fundos do terreno onde ficava a casa dos meus avós.
Nasci de uma união onde não havia amor, já que meus pais se separaram quando eu tinha dois anos e meu irmão apenas um ano de vida.
Após a separação, fomos morar com meus avós, e eles nos criaram, vi poucas vezes minha mãe durante minha infância.
Meu avô tem origem portuguesa, e minha avó é descendente de uma índia e um alemão.
Me contavam que meu bisavô veio refugiado da Alemanha, e no caminho conheceu minha bisa e se encantou por ela, e a raptou, levando ela pra viver no interior com ele.
Sei pouco sobre as minhas origens, só sei que está bisa, foi quem ensinou as rezas para meu bisavô, que muitas vezes foi contratado para quando fossem fazer queimadas.
Ele rezava numa linha reta, e onde colocassem fogo, o fogo deitava do lado contrário daquela risca.
Não sei se algum dia minha bisa amou meu bisavô, o que lembro dele, era um homem rude, brigão, mulherengo, que quando começou a ficar com Alzheimer,  minha avó teve que tirar o direito de ele cuidar do próprio dinheiro, pois ele gastava tudo com prostitutas.
Meu pai só conheci quando eu tinha quase 11 anos.
Antes disso não tinha nem ideia de como ele era fisicamente, até eu ver uma foto escondida aos 7 anos, só sabia que ele era o homem que vendia as coisas dentro de casa, que saia pra beber e viver a vida, sair com outras mulheres, e que batia na minha mãe e um dia deu um tapa no rosto da minha avó, e por isso ela o odiava a ponto de nunca deixar eu nem ver uma foto dele sequer, enfim, fui criada sabendo que ele não era alguém pra se confiar.
Não sei se tudo que era dito do meu pai era verdade, só sei que quando eles se separaram, a namorada do meu pai na época, que depois se tornou esposa, estava grávida do meu irmão.
Havia uma caixa em cima do guarda roupa da minha avó, que ela guardava documentos, antigas rezas do meu bisavô e da minha bisavó, e fotos.
Um dia, escondido da minha avó, eu abri aquela caixa e vi uma foto do me pai, e apesar de tudo que diziam dele, eu ficava imaginando meu pai aparecendo  dizendo que me amava e que jamais me abandonaria novamente.
Mas isso nunca aconteceu.
Esta caixa, hoje esta comigo, foi a única recordação de objeto de lembrança dos meus avós que ficou comigo.
Quando eu tinha quase 10 anos, um dia, uma tia, linda, loira, veio em casa nos buscar para conhecer meu pai.
Ele estava assando alguns passarinhos que ele havia pego e eu não consegui comer.
Não houve explicações do porque do sumiço dele todo este tempo, somente que era culpa da minha mãe e avó nos não termos nos conhecido antes.
Ele xingou bastante as duas, depois chorava, e do nada estava xingando denovo.
Não houve abraços, não houve eu te amo, apenas um homem tentando agradar a gente oferecendo passarinhos assados.
Foi tudo tão seco, tão estranho, que depois disso, eu não sonhava mais com ele, e não estranhei ele sumir novamente.
Meu pai morava no bairro do lado ao nosso, entre nossas casas devia dar uns 15 a 20 min a pé, mas mesmo assim, ele nunca ia nos visitar.
Naquele dia, soube que tinha um irmão e uma irmã, que eu só viria a conhecer 3 anos depois.
Sobre a família do meu pai, eu mal sabia deles, lembro do funeral da minha avó paterna, de eu ser baixinha demais para ver dentro do caixão, da toalha branca que estava na mesa, na época eu tinha dois anos.
Meu avô paterno veio nos visitar algumas vezes, um dia ele me deu uma boneca, se chamava Primavera, foi o único presente que ganhei dele.
Alguns anos depois ele veio a falecer.
Tios, tias e primos, fui conhecer anos depois quando comecei a usar drogas, mas isso conto mais a frente.
Então, o único pai que tive, foi meu avô.
Minha mãe também foi ausente na minha infância.
Ela trabalhava em casa de famílias e passava meses sem vir para a casa da minha avó.
Eu amava demais minha mãe, para mim, naquela época, ela era mulher mais linda do mundo, pois estava sempre arrumada, cheirosa, na minha visão, glamorosa como as panteras, ou as estrelas dos filmes que eu assistia na época.
Eu fazia de tudo para ficar grudada nela quando ela vinha nos ver.
Lembro de uma vez que ela chegou passando mal de um baile que ela tinha ido, e eu fiquei ali cuidando dela, cuidando do balde onde ela vomitou, limpei ela e nesse dia ela pediu para eu cantar pra ela, eu cantei a musica da Nikka Costa, On my own, eu na época na tinha a menor noção da tradução da letra, e confesso que ate estar escrevendo agora, eu nunca tinha visto, e doeu, porque naquela musica eu estava dizendo realmente tudo que eu sentia e precisava dela e não tinha a menor ideia.
Quando era menina, eu vivia cantando as músicas da época e eu levava jeito para o canto e a dança. Pois conseguia cantar músicas em inglês mesmo sem ainda ter sequer estudado o português.
Eu mal me lembro da minha mãe na minha infância, são poucas as memorias que tenho, alguns flashes, o dia que ganhei minha boneca Cris, o dia que ela me levou para comprar um vestido para mim, e antes de chegarmos na loja, ela encontrou a mãe de um ex dela, e a partir deste dia minha vida mudou radicalmente.
Minha família era católica, mas minha avó era o que alguns chamavam de bruxa das ervas, ela benzia, sabia chás pra curar o que fosse, lembro que o único remédio comprado que a gente usava era biotônico Fontoura com ovo de pata e leite moça, e merthiolate, , fora isso, eram chás e mais chás e muitos emplastros com ervas.
Atrás da casa que morávamos tinha um centro de macumba, e lembro de algumas vezes quando criança, ver minha mãe dançando em uma roda de roupa branca.
Sempre que a coisa apertava, lembro das cartomantes, das simpatias e dos centros que minha avó ia.
Eu via espíritos quando criança, eu detestava e demorei pra conseguir distinguir o que era vivo, porque as veze eu via bem nítido e as vezes apenas vultos negros.
Eu sei hoje que não eram espíritos, mas na época, minha família me ensinou que espiritismo existia e era algo normal e que eles acreditavam e seguiam.
Então minha infância foi bem solitária, eu era a menina estranha da rua.
Havia outras meninas na rua, mas eu não podia brincar com elas, tinha duas japonesas na casa da frente, e algumas meninas negras algumas casas depois do outro lado da rua, mas os pais de ambas não deixavam elas brincarem comigo, por causa da fama da minha mãe, que na época eu não sabia, e porque eu era a minha que falava com espiritos, então eu brincava com meu irmão e os amigos dele, o que eles não gostavam pois eu era boa em bola de gude e não tinha medo nenhum de carrinho de rolimã, além de que se rolasse briga, eu sabia bater bem.
Então eu ficava muitas vezes no corredor atrás da casa, onde havia barro colorido, alguns cacos de vidro e eu ficava ali horas conversando, horas brigando com os tais espíritos.
Montava castelos com aqueles cacos e barro colorido.
Sonhava com o futuro, enquanto as crianças diziam que queriam ser bombeiros, astronautas, famosos, eu sonhava com uma casinha bem confortável, com uma arvore grande de natal, e minha família unida, marido, filhos, mãe e pai, avós, tias e tios, primos e primas, como eram os natais na casa da minha avó. 
Eu nunca sonhei com fama, dinheiro , ser atriz ou coisas assim, eu queria uma família, esse era meu sonho de criança.
Todos os natais, a casa da minha avó lotava, vinha tios e tias de vários cantos, primos e primas, eu amava os natais.
Minha avó tinha uma mesa vermelha em formica bem grande, e a noite eu me enfiava escondida embaixo da mesa pra escutar os causos, como eu via espíritos eu não tinha medos, escutava como meu avô quase foi atacado por um lobisomem enquanto estava na casinha (banheiro naquela época), de meu bisavô quase morrer, porque dois fogos fartuo se encontraram bem em cima da carroça dele cheia de algodão, de como meu avô capturou um diabinho em uma garrafa, escutava sobre mulas sem cabeça, e tantas outras histórias que a parentada já tinha vivido ou visto.
Então no dia seguinte eu contava os causos pras minhas primas, uma delas, a M de quem ate hoje temos contato e o mesmo amor de irmãs como antes, era a que mais sofria comigo, pois ela morria de medo dos causos que eu contava. Para ir ao banheiro a noite eu sempre tinha que levantar e ir com ela, pois ela ficava com medo da mulher de branco.
Então natal para mim era com certeza a época do ano mais feliz, pois a casa cheia e eu em momento algum ficava só. Havia sempre comidas gostosas, minhas primas para brincar, casa cheia e alegre, não lembro de brigas, minha avó era uma mulher muito forte em todos os sentidos e bastava um olhar dela pra fazer qualquer um se calar.
Quando eu era criança, além de arteira demais, quebrei os braços 7 vezes, eu tinha umas crises de choro, do nada começava a chorar e não havia o que fosse para fazer eu parar de chorar, as vezes ficava horas e horas chorando.
Minha avó acabou se acostumando e ja não dava bola, mas uma vez fiquei com uma tia  enquanto minha avó saiu, e eu tive umas destas crises, ela tentou de tudo, ate me deu um conjunto de xícaras cor de rosa, mas nada fazia eu parar, e após horas ela ja desesperada, sem saber o que fazer, minha avó chegou e disse, deixa, daqui a pouco passa.
Nunca soube os porque das crises, mas tive varias destas quando criança. Só recentemente recebi o diagnóstico de borderline, e sempre fui, desde criança.
Algumas vezes minha mãe vinha nos buscar pra morar com ela, quando ela arrumava um marido.
Um deles, me deu uma surra tão grande uma vez, que eu cai de um barranco, e além de quebrar meu braço, levei várias mordidas do cachorro que estava preso lá embaixo porque eu havia caído em cima dele.
Após isso voltamos pra casa da minha avó.
Outro lembro que nunca falou comigo, ficamos em um tipo de pousada onde morava várias pessoas, e eu e meu irmão ficávamos no quarto das crianças e mal víamos minha mãe e o tal marido na época. 
Foi nesta pousada ou sei la o que era, que conheci meu ¨primeiro amor¨.
Eu tinha operado um furúnculo no bumbum, e estava com uma sonda, e como eram beliches e as poucas camas tínhamos que dividir a cama com alguém.
Ai um menino de nome com F, dividiu a cama comigo, disse que não tinha medo, ele foi o único que brincava comigo, segurava minha mão, foi meu herói e primeiro amor platônico.
Lembro que durou pouco e novamente voltamos pra casa da minha avó.
O ultimo que morou conosco, foi o mais difícil.
Lembra que eu comentei sobre o dia que minha mãe encontrou a mãe de um ex?
Pois é, depois que elas conversaram, fomos embora sem meu vestido, minha mãe calada e estranha, ela sumiu uns dias e depois nos disse que iriamos morar com ele.
Desde o primeiro dia eu nao gostei dele. 
Nunca vi tantos vultos negros de uma só vez como naquela casa, a casa da mãe dele.
A mãe dele era o que chamam de médium, e recebia espíritos e dava consultas com eles.
Este padrasto  bebia muito, nos batia muito, eu limpava a casa, fazia comida e se alguma coisa fizesse errado, apanhava muito.
Eu mal via a minha mãe, que trabalhava muito e chegava tarde em casa.
Ele era inspetor de aluno, então estava em casa vários horários.
Aliás eu não tinha amigos na escola, todos me odiavam porque eu era a " filha" do inspetor de alunos.
Tínhamos tanto medo dele, vivíamos em pânico de surra.
Não podíamos ter amigos, vivíamos trancados em casa e aí de nós se saíssemos, lá vinha surra.
A primeira casa que moramos, foi em um cortiço, e nossa casa era a ultima do corredor, ele fez um portal de madeira que vivia com cadeado, e nem as janelas podíamos abrir.
Não podíamos mais ir ver meus avós, não podíamos brincar com os vizinhos, vivíamos trancados em casa.
Uma vez, ele nos pegou brincando com os vizinhos através das frestas daquele portal, apanhamos tanto que nunca mais dávamos as caras no portão de medo.
Lembro de uma vez que eu e meu irmão cronometrados o tempo que levávamos da escola até a casa que morávamos, para podermos ir visitar minha avó, pois havia nascido um primo que estava na casa da minha avó na época, e queríamos conhecer e matar as saudades da avó que não podíamos ver.
Então corremos no dia seguinte até a casa da minha avó, que ficava no caminho entre a escola e a casa que morávamos,  vimos nosso primo e nossa avó, corremos até uma farmácia que ficava no caminho, vimos que estavam dentro de tempo e o farmacêutico perguntou do que corríamos e ao contarmos o motivo ele disse então olha para trás, e vimos nosso padrasto vindo, e na hora começamos a chorar pois sabíamos que íamos apanhar.
Aquele dia o farmacêutico falou com ele, e começaram os castigos de escrita, tínhamos que escrever frases como, papai e mamãe jamais irei desobedecer, papai e mamãe eu vou ser uma boa criança, e coisas do gênero, e fazíamos tabuadas.
Escrevíamos cada frase umas duzentas vezes, assim como a tabuada, e se errássemos aí vinha as surras.
Então eu e meu irmão nos esforçamos em decorar a tabuada e nunca errar a caligrafia ou as frases.
Assim, as surras nesta época diminuíram.
Até eu fazer dez anos e começar a ganhar corpo.
Aí minha infância acabou no olhar do meu padrasto.



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