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Capítulo dez
Quando me disseram está frase lá, eu fiquei meio revoltada, mas ao longo dos anos fui percebendo o porque.
Na casa que estávamos morando, conheci uma vizinha brasileira, morava ela e dois filhos, e fizemos amizade.
Confiei nela e contei tudo que a I havia feito comigo e como fui parar na situação que estava.
Eu a ajudava com os alimentos que eu recebia, ajudei com roupas e ajudei no que pude.
Ela queria que eu saísse com ela, que curtisse a vida, deixasse de ser reclusa do que jeito que era.
Mas eu não conseguia sair.
Um dia ela pediu pra eu cortar o cabelo dela, o que fiz com gosto e havia ficado legal, depois de dois dias ela apareceu com o cabelo mais curto, com um visual mais diferente e mais uma vez acabamos meio que discutindo pelo meu jeito de ser, que eu não vivia a vida, e ela se afastou.
A I tinha ido pra África com o dinheiro que havia pego, e na época morando nesta casa eu não sabia que ela tinha voltado.
Um dia passando por uma padaria que ambas costumávamos frequentar , vejo a S, minha vizinha brasileira, sentada tomando café com a I.
Eu não entendi nada, mas fiquei na minha.
Um dia encontrei o filho dela mais velho na rua, e perguntei de estavam bem que estava com saudades deles.
E ele numa grosseria, que eu jamais me aproximasse deles, que ele já sabia da minha falsidade, que ele sabia das mentiras que eu havia contado sobre a I, e que eu ainda ia pagar caro por isso.
Lembrei que a S tinha um carro, e assim como ela havia me usado, e usado uma amiga por conta do carro, ela também usaria a S, e aí comecaram as ameaças.
Começaram a deixar presentes na minha porta.
Magia vudu.
Meu filho tinha conhecido outro brasileiro na época, e os pais dele eram pastores de igreja.
Um dia na rua conheci a mãe dele, e como ela me vou abatida acabei desabafando com ela.
Ela estava de mudança , e a casa ao lado de onde ela ia morar estava pra alugar, quando eu fui ver a casa, descobri que era a casa onde morava o cara que roubou o meu carro.
Acertei com o proprietário e me mudei pra lá.
E essa família me ajudou muito muitas vezes.
Várias vezes ela quem aplicava minhas injeções do tratamento que eu fazia na época.
E comecei e ir a igreja com eles.
Eu sempre acreditei em Deus, mas como pagã, acreditava que existia Deus e uma deusa.
Como uma cena do filme Avalon, em que a Morgana explica que existia duas forças, feminino e masculino, um Deus pai e uma deusa mãe, era no que eu cria.
O Jesus que eu conhecia era o Jesus pregado na cruz, que nas eu no Natal, e morreu na Páscoa, mas só.
E ao começar a frequentar a igreja comecei a enxergar certos padrões em minha vida, que eu estava errando demais e demais .
Um dia eu saí fazendo a limpa em casa, eu tinha várias imagens, de budas, de deusas, vários tarôs, enfim, tudo que era místico foi se ao lixo.
E comecei enfim a ler a Bíblia, mas eu não entendia nada do que estava escrito lá.
E não entendia alguns sermões que eles davam.
Mas mesmo assim eu queria saber mais sobre Jesus.
Foi quando eu conheci o P.
Desde o primeiro dia que começamos a nós falar, nunca mais ficamos um dia sem nós falarmos.
Passamos horas e horas no telefone falando.
E como amávamos conversar, falávamos de tudo, desde conspirações, religião, filmes, livros, vida, sobre tudo.
Quando ele foi em casa a primeira vez, eu havia levado um tombo da escada e ele me fez uma massagem, e no meio da massagem ele me beijou.
Conversamos mais um pouco e ele foi embora.
Depois daquele dia, não ficamos um dia sem nós vermos, ele começou a vir dormir nos finais de semana em casa.
Ele era separado, tinha dias filhas e morava com os pais.
Durante 3 meses nosso namoro não foi assumido, porque até então eu não sabia que eu era uma das 3 candidatas que ele estava testando para ver qual seria escolhida.
Até irmos em uma viagem para o Algarve.
Foi uma das viagens mais incríveis que já fiz na vida. E nós aproximamos muito lá, conhecemos um lado nosso que nem nos mesmos tínhamos ideia.
E esta viagem foi o ponto decisivo para ele enfim me assumir como namorada.
As filhas não me aceitavam, então demorou pra eu poder conhecê-las, assim como os pais dele.
Mas ele começou a me assumir com os amigos.
Lembra o L que me acusou de roubar suas cuecas e roupas? Era um dos melhores amigos do P, ele anda achava que eu tinha roubado ele, mas o P conseguiu convencer ele que eu não era este tipo de pessoa.
Nós tínhamos um ritual, as sextas íamos a igreja, era dia de culto de estudo, e depois da igreja , nos sentavamos com uma garrafa de vinho e passávamos a noite conversando sobre tudo.
Muitas vezes dormimos no sofá, mas não sei de onde arruma anos tanto assunto, mas amávamos nossos momentos assim.
Tínhamos em comum a paixão pelo medieval, ele participava de feiras medievais e eventos que retratavam as épocas, e põe conta desta paixão , surgiu o sonho de abrirmos a taverna medieval.
Procuramos vários lugares até acharmos um que era perfeito, o local precisava de uma reforma, mas achamos que nos dois dariamos conta.
E lá fomos nós nesta empretaitada.
No dia que fechamos o contrato, todos bebemos muito, mas o P foi além do normal, e aquele dia soube que quando ele bebia demais, ele tinha hemorragias da hemorróida.
Ele tinha pressão alta mas não se cuidava.
Era teimoso feito uma mula.
Odiava hospitais e dizia que a maior prova de amor que ele me dava era todas as vezes que ele tinha que me acompanhar nos hospitais ou passar a noite lá comigo.
Por mais que eu tentasse ele nunca ia ao médico.
Como é costume dos portugueses beberem vinho no almoço e jantar, eu achava normal ver o P beber um aperitivo antes de comer, o vinho no almoço e depois um whisque pra digestão.
Mas aos poucos fui percebendo que o tanto que ele bebia ia além dos costumes do País.
Ele era alcoólatra.
Então eu tentava ao máximo controlar isso, mas sendo donos de uma taverna onde não faltava bebidas isso ficava difícil.
Eu ficava na cozinha, e ele no balcão para receber os clientes.
Depois contratamos um amigo dele como garçon.
Tinha um quartinho onde montamos com computador uma cama e lugares para vários brinquedos para meu filho.
Aliás, os dois desde o primeiro momento se amaram, meu filho o via como pai que ele sempre sonhou e ele o amava muito.
Passamos noites difíceis até reformar e decorar a taverna.
Dormimos em um colchão inflável, muitas vezes cheios de tinta tal o cansaço.
Levávamos o Rafa pra escola e voltavamos pra reforma.
Cada detalhe, cada decoração , cada mínimo detalhe fomos nos que montamos.
E ficou lindo demais.
No dia que inauguramos eu mal acreditava, era um sonho se realizando.
Foi neste dia que a ex dele deu as caras pela primeira vez.
Ele tinha tido várias amantes depois do divórcio, na conta dele ele dizia que já havia passado de mil.
No computador dele uma vez achei uma pasta onde tinha várias e várias fotos e vídeos de todas as mulheres que passaram pela vida dele.
A única mulher que nunca tirou nenhuma foto sexual ou fez um vídeo deste estilo na vida dele fui eu.
Antes de mim , ele havia notado com outra mulher, que um dia ela havia terminado tudo.
E no dia da inauguração lá estava ela, com vários amigos, comemorando o aniversário dela uma semana antes.
E eu, tive que servir a mesa dela, ser educada, suportar a situação calada.
Quando eu precionei ele, ele disse que não sabia que ela ia fazer isso, mas que eles mantinham o contato, que mesmo após a separação eles continuavam amigos.
Aí veio as revelações, ele havia feito uma viagem a Espanha para comprar material medieval, eu pedi pra ir junto, já que eu era doida pra conhecer a Espanha, mas ele disse que eu não podia ir junto, pois a filha ia na viagem, e como ela ainda não aceitava nosso namoro, não ia dar certo viajarmos juntos.
Bem, ele confessou que a eu não pude ir pois ele havia combinado a viagem com a ex, para eles conversarem, e que apesar das investidas dele, ela não o queria de volta.
Isso me fez perceber que em todos os meus relacionamentos, todos sem excessão, eu havia sido traída.
Foi antes de inaugurarmos a taverna, e eu terminei com ele.
Ele me ligava o dia todo, batia na minha porta todos os dias, quando eu saia pra levar o Rafa pra escola lá estava ele, quando voltava lá estava ele, e ele tentou de todas as formas me pedir perdão, e ele foi o único homem que dei uma segunda chance.
Mas a ex nunca nos deixou em paz, ela sempre aparecia na taverna, sempre ligava pra ele, descobri que enquanto eu estava no hospital internada, e ele estava ao computador a trocar e-mails com ela.
Um dia eu enfrentei ele, disse que isso tinha que acabar de vez, pedi pra ele ligar pra ela e dizer que nunca mais ela ligasse para ele, ele tremendo fez isso, e derrepente ele passou o telefone pra mim, e ela disse que ele nunca iria deixar de ver ela, que ele até podia estar comigo, mas era ela que ele amava.
Nós discutimos aquela noite, e em um momento que na raiva eu joguei um enfeite de mesa em cima dele, e disse que não aguentava mais aquilo, quando virei as costas ele me chutou, e eu cai de joelhos no chão, eu pasma fiquei olhando pra ele, e tudo que ele fez foi sair e beber.
Quando chegou, não quis conversar, e eu com medo me calei.
Eu sofria, muito, porque eu achava que tinha algo muito errado comigo, já que em todas minhas relações eu fui traída.
Eu estava exausta por causa de tanto trabalho na taverna, das brigas por causa da ex, dele teimar em se embebedar, e minha filha estava passando problemas com o cara que ela morava.
Na época eles estavam morando no Maranhão , e começou a bater na minha filha.
Eu me sentia tão impotente porque eu não conseguia resolver nada na minha vida.
Não conseguia tirar minha filha das garras daquele cara, não conseguia afastar a ex do P, não estava conseguindo manter ele longe das bebidas, e minha saúde só piorava.
5 operações, já haviam tirado útero, parte de um ovário, apêndice, depois tiraram o restante do ovário e as trompas do lado direito, e as dores continuavam.
Foi quando eu fui operada a última vez que minha vida se afundou denovo.
Eu ainda não havia tirado os pontos, e nós não comiamos em casa, já que todas as minhas panelas estavam no restaurante , eu só cozinhava lá, então aquele dia estávamos esperando ele chegar para enfim podermos comer.
Não almoçamos, e já estávamos famintos quando ele chegou a noite, bêbado, trançando as pernas, feliz porque estava orgulhoso da filha mais nova, que passou o dia trabalhando com ela e que havia até bebido vinho com ela para comemorar, mas aí ele havia passado na casa do amigo L e ambos haviam bebido whisque, e por isso ele demorou a chegar.
Ele queria que nos saíssemos , fossemos para um barzinho ou passear como fazíamos no começo do namoro, que estávamos trabalhando demais e não tínhamos mais tempo para nós, mas ele estava já falando enrolado, ele mal se aguentava em pé, e suas calças já estavam manchadas de sangue da hemorróida.
Eu tentei de todas as formas convencer a ele pra deixar para sairmos no dia seguinte , mas não houve acordo.
Ele tinha uma coleção enorme de armas, e algumas grandes como uma espingarda ficava em cima do guarda roupa do Rafa.
Como eu havia tirado a chave da porta , ele foi e pegou a arma e eu perguntei o que ele pretendia com aquilo, e ele disse que ia sair, porque tinha acabado os cigarros e ele queria beber mais uma dose já que eu não queria acompanhar ele.
Lembro que eu dei um tapa no rosto dele, disse pra ele acordar do papel ridículo que ele estava fazendo, que o Rafa estava assistindo todo aquele papel ridículo.
Que ele mal se aguentava em pé, que eu não ia deixar ele sair dirigindo naquele estado porque eu não queria ficar viúva.
Ele me empurrou e disse que ia sair.
Eu me coloquei em frente a porta de casa e perguntei , então me mostra como você vai sair.
E lembro de escutar o grito do meu filho e o barulho de vídeos quebrando.
Nossa porta era de ferro, com três vidros na parte de cima.
Ele ia dar uma coronhada de 12 na minha cabeca, mas a arma desviou e ele quebrou um dos vidros.
Ao ver a cara do meu filho, eu dei a chave pra ele, e disse , se queres se matar vá, mas nunca mais vais ter outra chance de tentar me matar.
E ele saiu.
Meu filho estava sem comer, e acabei pedindo a uma vizinha se podia dar um prato de comida a ele, e entre choros contei o que havia se passado, enquanto o Rafa comia eu desci, e chorei imenso sem saber o que fazer dali em diante após tudo isso.
Como vi que o Rafa demorava a descer, subi na casa da vizinha, e o P estava sentado na mesa com uma garrafa de vinho na frente bebendo e conversando com a vizinha, eu perguntei de onde veio o vinho, e ela disse que ela havia oferecido, que ele era de maior e responsável pelos seus atos.
Lembro de pegar o copo, mostrar pra ele e dizer, quando você tentar lembrar o que acabou com nossas vidas juntos, lembra deste copo, e joguei o copo longe, e desci para casa.
O Rafa estava dormindo comigo, lá pelas 3 da manhã ele desceu, e começou a me pedir perdão e pedir para eu deixar ele dormir do meu lado.
Eu disse que ele dormisse na sala, e no dia seguinte nós falávamos.
Ele insistiu mais um pouco e me virei e deixei falando sozinho.
Até que ele desistiu e foi dormir no sofá.
No dia seguinte o Rafa foi pra escola e eu tentei acordar ele, ele nuna baita ressaca, e com sono por ter dormido pouco não queria conversar, mas insisti, disse que ele teria que fazer uma escolha, a bebida ou a família , pois ambos não dava mais para conviver junto.
Ele não quis conversar, levantou, pegou o carro e saiu.
Era um quarta feira , dia de quartas de fado vadio na taverna, dia em que a casa lotava, e nossa vizinha era uma das fadistas que ajudava a organizar o evento.
Ela veio me perguntar que horas íamos a taverna e disse que a taverna não iria abrir aquele dia, eu estava colando fitas pra fechar o buraco dos vidros quebrados.
Ela quis discutir comigo dizendo que a decisão era do P, e eu lembro de olhar pra ela e dizer, eu dei meu sangue lágrimas e suor para montar aquele lugar, meu nome podia não aparecer no contrato do aluguel, mas a taverna é o que era graças a minha participação, e era tão dona quanto o P.
Ela riu e disse que eu estava sonhando.
Eu apenas disse então tente abrir a taverna hoje, simples assim.
Ela foi atrás do P, acharam ele dormindo na casa dos pais, e ele me ligou, pedindo para eu entregar o dinheiro para pagar os músicos e a licença de som para poder abrir a taverna.
E só respondi, se a gente não conversar antes, não há mais eu e você, se não houver, mais eu e você, não há mais taverna.
Ele desligou, e não apareceu em casa aquele dia.
No dia seguinte como ele não dava as caras, eu acabei ligando para os pais dele, e contei tudo que se passou, e disse que eu não havia dado o dinheiro para abrir a taverna, mas que ele não aparecia em casa a dois dias já e eu estava preocupada.
Os pais estavam de férias no Algarve.
Disseram para eu não me preocupar pois eles iam falar com ele.
Algum tempo depois ele ligou bravo, disse que eu não devia ter envolvido a família dele, e respondi que as ações dele prejudicam a todos ao redor dele e já estava na hora de ele acordar e ter consciência disso, ele disse que estaria indo pra casa e em alguns minutos íamos enfim conversar.
Isso foi as 10 da manhã.
Quando deu 11 horas senti um aperto enorme no peito e uma sensação ruim.
Comecei a ligar pra ele mas ele não atendia.
12 horas nada dele aparecer , as 14 liguei pra uma das filhas dele perguntando se ela tinha notícias dele.
Ela muito brava disse que era normal ele fazer isso, que ele estava fazendo pirraça porque eu briguei com ele, que quando passasse a raiva dele, ele voltava, e me pediu para não envolver os avós, pois como o pai vivia aprontando destas eles não deviam ser perturbados por conta dos erros dele. Não contei que já havia ligado para eles.
A noite estava já em pânico e não parava de chorar.
No dia seguinte após deixar o Rafa na escola, peguei uma foto dele e fui na delegacia.
Havia vários policiais no balcão preenchendo os relatórios do dia passado.
Quando um deles perguntou o que eu estava fazendo lá, disse que queria reportar um desaparecimento. E lembro de um deles perguntar se eu tinha ligado para o celular dele e disse que sim mas ele não atendia, nisso um deles levantou a cabeça e disse vai ver que ele não quer ser encontrado e quando me viu, cutucou o outro que estava do lado dele, e lembro de ele sussurrar, é a dona da taverna.
Aí o policial veio até mim e disse que o P havia sofrido um acidente de carro próximo de casa, que havia sido levado ao hospital, mas que eles não poderiam me dar mais informações pois, eles só acompanharam até ele ser levado ao hospital.
Quando ele disse isso senti tudo se quebrar dentro de mim, e quando sai cambaleando da delegacia, lembro da hora, senti uma dor tão forte no peito que parecia que algo havia sido arrancado de dentro e quase caí no chão.
O policial que me deu a notícia me amparou e disse para eu não me preocupar pois ele não havia se ferido no acidente, portanto devia estar tudo bem.
Mas eu senti que não.
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