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Capitulo dois
Minha mãe era a pessoa mais importante na minha vida, eu lembro que vivia ansiosa esperando a visita dela, e quando acontecia, para mim era incrível.
Eu fazia de tudo para ter a atenção dela , lembro de uma festa na empresa ou na casa de amigos não lembro, que ela me pediu para eu dançar para os amigos verem, e ver a cara dela de orgulho fez meu dia.
Eu sei que por causa desta idolatria que eu tinha por minha mãe, acabei algumas vezes, desvalorizando quem sempre esteve lá por mim, minha avó, mas mesmo assim minha avó sempre foi a intermediária entre nós quando a coisa ficava feia.
Minha avó sempre foi mais que minha mãe, foi minha confidente, a única pessoa que confiei, que acreditava, que eu amava sem medos. Quando meu mundo virava de ponta cabeça, ela sempre tinha um concelho pra concertar tudo. Sempre havia um meio, um chá, uma simpatia, para tudo, ela sempre achava solução.
Sei que Deus muitas vezes agiu através da minha avó, pois se não fosse por ela, eu teria a muito tempo atrás cometido suicídio.
Minha avó era meu porto seguro, não importava o que acontecesse, eu sabia que no final ela ia dar um jeito de tudo ficar bem
Minha avó sempre tentou de tudo para eu não odiar minha mãe.
O último dia feliz da minha infância foi um passeio com minha mãe para o centro de Osasco para comprar um vestido para mim, estava tão feliz, com sorvete na mão, e minha mãe encontrou a mãe do ex ela.
O passeio acabou, pois ambas conversavam em voz baixa e combinaram de se encontrar e lá fomos embora pra casa.
Eu amaldiçoei aquele dia por tantos anos.
Uma semana depois minha mãe estava morando com ele e nós, tudo mudou.
A vida com ele não era nada fácil, ele bebia, tinha uma arma, vivia ameaçando matar a todos e depois se matar.
Passamos tantos momentos assim, fora as surras e toda tortura mental.
Aí veio o abuso.
Começou me mostrando revistas, e pediu segredo, pois se eu contasse a minha mãe apanhava.
Foi nesta época que as surras comigo voltaram.
Toda vez que ele abusava de mim, ele inventava uma desculpa qualquer, que eu havia queimado o arroz, respondido mal, passado mal uma roupa, qualquer motivo para me bater.
Eu não usava nem shorts nem saia naquela época, porque minhas pernas viviam marcadas das surras.
Quando ele estava com muita raiva, ele batia com o lado da fivela, e isso deixava muitas marcas de corte e feridas.
Eu sentia que tudo aquilo era errado pois me fazia mal, tantas vezes ensaiei em contar pra minha mãe, mas ele nunca deixava nos duas sozinhas, e no dia seguinte me batia, ameaçando que da próxima ia ser pior se eu tentasse contar.
Na época tinha um casal morando nos fundos da casa que morávamos. De tanto me ver com olhos vermelhos de chorar, ela foi aos poucos conseguindo minha confiança, e ao contar pra ela o que estava acontecendo, ela me ajudou na minha fuga.
Fugi pra casa da minha avó, contei tudo que estava acontecendo e ela quis enfrentar minha mãe e meu padrasto.
Ele negou claro, me chamou de mentirosa, disse que se eu queria ir embora que fosse mas podia esquecer que tinha família pois eu jamais os veria. Disse que eu jamais poderia pisar ali naquela casa e em todo tempo que ele falava, minha mãe me olhava com raiva e em momento algum ela disse uma palavra sequer.
Na época eu cuidava do meu irmão mais novo, eu quem ficava com ele o dia todo depois da escola até minha mãe chegar tarde da noite.
E conversando com minha avó sobre isso, ela disse que a escolha era minha, e se acontecesse de novo, aí ela tomaria outro tipo de atitude.
Lembrei de um gravador antigo que eu tinha e bolei um plano de gravar tudo que ele dizia sempre para mim e o que fazia, , e assim poder provar que ele estava mentindo.
E desta forma, eu podia continuar cuidando do meu irmão pois eu o amava muito e não queria abandonar ele apesar do medo que tinha do meu padrasto.
Naquela noite que voltei pra casa, minha mãe me acordou e disse que tinha ido consultar os tais espíritos que a mãe do meu padrasto recebia, e eles disseram para ela que eu havia mentido, aí ela disse que dá próxima vez que eu tentasse destruir a vida dela, ela destruiria a minha.
Eu tinha apenas 10 anos na época.
Ali acabou minha infância, a partir daquele dia, eu não tinha mais uma mãe.
E ela ao passar dos anos, ela deixou isso bem claro.
E meu ódio ao tais espíritos só aumentou.
E passava os dias com o meu gravador do meu lado, carregava pra todo canto que eu ia. Mais do que nunca eu queria provar a minha mãe que eu estava dizendo a verdade. Queria o amor dela, e não o ódio e desprezo com o qual ela me olhava.
Um dia lavando louça, não deu tempo de ligar o gravador, ele me pegou pela cintura, colocou no colo dele e disse, não vou nunca mais te tocar não se preocupe, guarde uma frase pra sua vida, um dia da caça outro do caçador, e me soltou. Eu nunca entendi o porquê ele me disse está frase.
Naquela mesma noite ele teve uma enorme discussão com minha mãe, escutamos minha mãe perguntar onde ele iria de sunga e arma, ele respondeu que se ele morresse, morreria de cuecas limpas, e depois escutamos o tiro.
Dormimos em beliche, meu irmão deu um salto tão grande e correu para o banheiro, pois o nosso medo era ele cumprir a promessa que ele sempre fazia, matar todos nós e depois se matar. Então, meu irmão foi checar se ele havia atirado em minha mãe.
Meu irmão foi o primeiro a vê-lo, ele havia dado um tiro na cabeça, e ele jazia numa poça de sangue e fezes.
Eu quem fui chamar um vizinho, que ligou para a policia, que veio buscar o corpo e levar pro hospital, ele ficou em coma acho que um ou dois dias, nao lembro, ate ser dada morte cerebral.
Eu quem fui dar a noticia a mãe dele.
Durante todo o processo, policia, lavar banheiro, enterro, e enfim a mudança pra casa da minha avó, eu não vi minha mãe chorar nenhuma vez.
Voltamos a morar no quintal da casa da minha avó, mas minha vida com minha mãe se tornou um inferno.
Ela me olhava com desprezo, como se eu fosse a culpada pela morte do meu padrasto, pra todo mal que acontecia, eu era a culpada.
A garotinha que amava se vestir de rosa, começou a vestir roupas largas, cortou o cabelo, se parecia mais um menino menino.
Eu tinha medo de que algum homem me olhasse como meu padrasto me olhava.
Ate que um dia de tanto minha avó insistir, eu me vesti de blusinha rosa, saia branca de babados com fitas coloridas em tons pasteis, e meia calça azul bebe, sapato estilo bailarina.
Ela tinha comprado algumas peças neste estilo para eu usar.
Ela queria que eu me vestisse como uma menina da minha idade.
Da primiera vez que usei, levei uma mordida de cachorro da única menina que morava na outra rua e falava comigo.
Da outra vez que usei, roupa neste estilo, foi outro péssimo dia.
Neste dia eu fui brincar com a vizinha que havia mudado a pouco tempo, ela tinha dois irmãos gêmeos, e eles me convidaram para brincar de papai e mamãe, mas o que eles fizeram foi o que me padrasto fazia comigo, eu tentei sair dali, mas acabei apanhando de chinelo da menina, fui abusada pelos irmaos, e por mais dois meninos que moravam na rua.
Quando cheguei em casa, machucada, e contei pra minha avó o que tinha acontecido, desta vez apanhei, porque um dos rapazes era namorado da minha tia, e negou tudo o que disse, não lembro da versao que ele contou, mas foi algo como se ele jamais tivesse participado disso, e apesar de eu estar machucada, eu apanhei como se eu fosse a culpada pelo que eles me fizeram.
Então, eu nunca mais usei rosa, não usava roupas que marcavam o meu corpo.
Não queria mais brincar com ninguém, e nesta época, eu me afundei em livros.
Minha leitura não era para uma adolescente normal.
Eu lia Cristiane F., Diário de Anne Frank, A queda para o alto, e livros de Edgar Allan Poe e Steve King e livros sobre paganismo.
Eu era a estranha da escola, um ano depois do ocorrido, um daqueles meninos se desculpou pelo que houve, era ano novo, e não sei o que houve mas ambos começamos a tremer, e ele acabou me dando meu primeiro beijo.
Na minha vida de solidão, pois não tinha amigos, e em casa o clima era horrível, eu acabei perdoando o que ele fez no passado e acabei namorando ele, com a autorização da minha mãe, que na época disse que eu ja tinha idade e experiência pra namorar. Eu tinha quase 12 anos.
Havia outra menina estranha na escola, que por acaso não foi com minha cara, e pagou a garota mais vulgar da escola para beijar meu namorado na minha frente.
Eu fiquei pessima com isso, me fechei mais, me tornei mais estranha, ai por dó, ela se tornou minha amiga.
Aprendi o que era Rock, parei de pentear meus cabelos, usava mais roupas pretas, calças jeans pintadas e rasgadas, me tornei o que naquela época se chamava piolho de roqueiros.
Quando aos 12 anos, quase 13, comecei a trabalhar, eu trabalhava em uma loja de shopping, prédio que ficava abaixo da empresa que minha mãe trabalhava, e apesar de nosso horários serem os mesmo, nunca íamos juntas pra trabalhar.
Mas onde eu trabalhava, era obrigada a me maquiar, pois era uma loja de cosméticos, e eu odiava. Me sentia uma palhaça com aquela maquilagem toda.
Eu não queria ser notada.
Depois do M, eu namorei um cara de 24, que apesar da enorme diferença de idade, ele nunca abusou de mim, nunca tentou passar a mão, ele só me beijava, fazia cafune, cuidava de mim, e eu comecei a achar que talvez os homens não eram todos ruins.
Ate aparecer um garota gravida dele que literalmente jogou uma melancia em cima de mim.
Ele me disse que era um homem, e que o que ele nao podia fazer comigo, fazia com ela, ai ele voltou para o Maranhão e nunca mais o vi.
Ai virei a rebelde, eu ja trabalhava, comecei a fumar cigarro, comecei a beber, e minha avó me levou pra morar na casa dela, pois ela achava que a convivência com minha mãe, estava me prejudicando, mas morávamos todos no mesmo quintal então a situação não melhorou.
Aos 14 eu fui para um danceteria pela primeira vez, com minha mãe, uma tia e algumas vizinhas da idade da minha tia , e conheci meu terceiro namorado na época, ficamos alguns meses e ele terminou comigo.
Uma semana depois ele apareceu em casa e disse que eu tinha a sobrancelha grossa demais, eu nunca usava uma saia, que eu usava roupas parecendo um menino, que se eu me vestisse como uma mulher ele voltaria a namorar comigo.
E assim fiz, comecei a usar saias, roupas femininas, fiz as sobrancelhas, usava batom, e ai começou as brigas porque eu não deixava ele me tocar.
Ele me chamava de geladeira, mas eu tinha era medo.
Cada vez que ele tentava tocar meu corpo, vinha aquela sensação horrível que eu sentia quando meu padrasto me tocava, ou o que os meninos me fizeram.
Ate que um dia eu tive uma briga horrível com minha mãe, fui na casa dele procurando colo e conforto, tudo que ele me disse, foi que os pais tinham saído e a gente podia ¨se pegar¨.
Eu fiquei com tanta raiva que disse ok, vamos fazer, mas se eu não gostar nunca mais quero te ver.
Ele todo confiante arrancou minha roupa, não houve carinho, nada, apenas dor, muita dor, e ele num momento olhou pra mim e disse, "não sei porque você esta com esta cara, você esta toda molhadinha", e quando ele levou a mão para mostrar, a mão dele estava toda vermelha, ele tinha fobia de sangue, e ao ver que a cama toda estava cheia de sangue, ele desmaiou.
Eu naquela situação, com muita dor fui pro banheiro, tomei um banho, coloquei minha roupa e quando estava saindo da casa dele, ele acordou e estava desesperado porque colchao manchado de sangue era da cama da irmã dele.
Eu não disse nada só fui embora.
Ao chegar em casa, com a cara inchada de tanto chorar na rua, minha avó que estava sentada na rampa que dava na casa da minha mãe, nesta época estava de novo morando com ela, minha avó, disse, você aprontou não foi?
Eu disse que não havia entendido, e minha avó disse, só pelo jeito que você esta andando, eu ja sei o que você acabou de fazer, com o choro engasgado na garganta, me tranquei no banheiro, já que eu dividia o quarto com meu irmão e passei horas chorando ate alguém precisar usar o banheiro. O tal namorado sumiu por uma semana, e naquela semana eu contei pra minha mãe o que havia acontecido, e a reação dela foi como se não fosse nada, só perguntou, vocês vão ficar junto e eu disse que não, não falamos nesse assunto até ele aparecer em casa.
Depois de uma semana sem dar uma palavra, ele chegou em casa, subiu direto ao quarto da minha mãe, ficou um tempão falando com ela e depois foi para a sala onde eu estava, lembro que eu estava com meu walkman, ele tirou meus fones de ouvido, passou a mão pelo meu ombro e disse, já está tudo certo, eu passei uma semana em casa ouvindo rock pesado pra pensar em tudo, e já falei com sua mãe, vamos namorar até eu completar 18, (ele tinha 16 na época ), e quando eu fizer 18, nos casamos, então não precisamos mais nos preocupar com nada, agora que tal você fazer um carinho "nele" pra gente comemorar?
Eu nem consigo descrever o que senti na hora, uma mistura de raiva, repulsa, ódio, tudo junto.
Eu apenas tirei o braço dele do meu ombro, disse que eu havia dito que se não gostasse que nunca mais iria querer ver a cara dele, então que ele fosse embora, e coloquei meus fones novamente.
Ele tentou argumentar e tirar meus fones mas mantive a minha posição.
Quando ele foi embora, e eu disse pra minha mãe que não iria haver casamento, ela me deu um olhar tão estranho, um desdém, que eu não esqueci.
Eu fui ficando cada dia a estranha, no modo de me vestir, de falar, eu era difícil de fazer amizade.
Até conhecer a G, ela me conhecia da escola que meu padrasto era inspetor de alunos, e na época ela me detestava, mas quando falamos pela primeira vez na outra escola, nos tornamos grandes amigas.
Aí comecei a sair, a ir a barzinhos, a fazer amizades.
Conheci meu namorado número 4, o G.
Aos 15 anos fumei meu primeiro cigarro de maconha, esse namorado que na época era viciado em outras drogas, e como ele vivia me oferecendo de me picar, eu acabei terminando com ele várias vezes por conta disso, na época tinha o seguinte pensamento, só vou me picar o dia que for para toma uma overdose e acabar com tudo.
Hoje graças a Deus ele não usa mais.
Após anos numa instituição cristã para rapazes que usavam drogas ele ajudou muitos a superarem o vício.
Mas na época, eu acabei me afundando em bebidas e drogas.
Não importava o dia, perdi as contas dos dias em que ia trabalhar de ressaca.
Eu mal me alimentava, deixei de ser a gordinha do grupo.
Eu não suportava a situação com minha mãe, odiava meu corpo, odiava minha vida, eu queria acabar com tudo.
Um dia, indo a boca com este namorado, dei de cara com uma prima por parte de pai, naquele dia conheci os meus tios, e o irmão dela, e ficamos eu, minha prima, meu primo e meu tio fumando maconha na mesa como se fosse a coisa mais normal do mundo.
Esse meu primeiro amigo e primo que morreu de overdose alguns anos depois. Minha prima passou por tantas coisas ruins na vida, tantos traumas, que até hoje ela leva uma vida meio solitária, entre copos. Meu tio morreu e minha tia leva uma vida de coroa de bailes.
Por causa de tudo que estava acontecendo na minha vida, por me sentir a pessoa mais indesejada do mundo, pois até meu irmão, que era super popular e também não gostava do jeito que eu era, um dia, quebrei uma gilete, me tranquei no banheiro e ia cortar os pulsos, meu irmão do nada começou a bater na porta, mandando eu abrir, e eu aquele dia acabei desistindo
Assim morreu uma garotinha que amava rosa, e começou a nascer a bruxa gótica.
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